eucaliptas
Fazem meses que não te vejo, ‘que não falo com você’. Não sei se você está bem, se está estudando, se está gostando de outro alguém ou se às vezes ainda sonha comigo. Nada mais sei sobre você, além do que sobrou. Recentemente vi umas fotos suas, o corte de cabelo ainda era o mesmo, o físico, o estilo de roupas. Mas tinha algo diferente, eu sei que tinha, porém, como eu poderia explicar? Era algo no seu olhar castanho escuro, como se faltasse algo por dentro de você. Era o formato dos traços do seu sorriso, como se tivesse perdido um pedaço de você… Então lembrei, talvez o que faltava, era o pedaço de você que eu levei comigo, e não consegui te devolver.
Caio Fernando Abreu (via eucaliptas)
distanciarei
Li esses dias uma frase que era tipo assim “a gente tinha tudo pra dar errado, e deu certo”. Tentei te encaixar no meio dessa frase, e dei risada porque por essa frase pra nós dois, é o mesmo que contar uma piada. Stubb, ainda não aprendi a ser imatura o suficiente pra entender o seu jeito. E você ainda procura um pouquinho de maturidade pra entender o meu. Você por acaso sabe fazer alguma coisa dar certo? Acho que sua sina é dar errado, Stubb. E a minha sina é tentar mudar a tua. Eu podia mesmo por aqui que a gente tinha tudo pra dar certo, mas, veja bem… A gente não tinha. Nada, nadica que pudesse dar pelo menos um pouco certinho. Até quem vê de longe, Stubb, conhece bem esse teu cheiro de cafajeste bem lavado. E eu sabia bem disso, acho que eu meio que tampei o nariz. Sabe? Você é meio tudo-pra-dar-errado e eu sou meio metódica. Eu quero tudo certinho e no lugar, e você estragou tudo.“Você tem belas coxas, Robin. É um belo mapa e um bom aroma pra seguir”. Você tem uma bela barba bem feita, Stubb, e um belo mapa e um aroma de cafajeste horrível pra seguir. Sabe aquele negócio de “só não deu certo nesse momento”? A gente não deu certo em nada.“Mudei de perfume, viu, Robin?” “Que interessante, mas a canalhice é sua essência.” “E as tuas coxas ainda são os meus mapas favoritos”. E o teu jeito de encrenca, Stubb, ainda é a coisa mais errada e péssima do mundo. Mas, infelizmente, todo yin tem um yang. E com a gente não foi nem um pouquinho diferente. Sabe o que é? A gente tinha tudo pra dar errado, e deu.
Robin and Stubb. (via distanciarei)
eucaliptas
Nunca sei quem eu vou ser em seguida. A cada vez me surpreendo. E, se não há surpresa, desisto. Deixa de me atrair. A não ser quando estou apenas prolongando uma existência já iniciada em páginas anteriores. Nesse caso, é um aprofundamento e não precisa ser novidade. Pode continuar, pois escapa à mera repetição. Mas fora isso, o que fascina é não fazer ideia de como as coisas vão se passar nem para onde vão ou de que modo, antes que elas comecem a acontecer. Nem imagino quem serei a cada vez. Em que cenários viverei, em que época. Ou a quantos me colarei., por dentro de suas almas turvas ou transparentes, mas invariavelmente cheiras de surpresas. O que sei, sempre, é que sou um intruso ao lado de tantos outros seres. Nenhum deles sabe que estou ali. E, no entanto, ao criá-los, alguém se dirigiu a mim, apostou em minha eventual chegada um dia, sem poder me definir por antecipação. Tais intrusões me viciam. Mergulhos ávidos, exigem sempre mais um a seguir, e outro depois, cada vez mais numerosos e mais fundos. De cada imersão volto mais denso, trago de volta a perplexa constatação da infinitude humana. Uma vida apenas não basta. Viciei-me no apelo de outras, infinitas.
Infâmia   (via eucaliptas)
autografia
É que a gente parece duas crianças. Um mais birrento do que o outro. Somos mimados, cheios de vontade. A gente briga, muito. A gente discuti, se bate, se xinga e até dizemos que nos odiamos. Ah, se todo ódio fosse assim. Mas você acaba voltando pra mim e eu voltando pra você. É como se tivéssemos um imã. Um polo positivo atraído por um negativo. É a física. Até a natureza conspira ao nosso favor.
Querido John. (via autografia)
so-quotes
Dizem que levamos 7 minutos para dormir, e que nos primeiros seis minutos e cinquenta e nove segundos, nossa cabeça automaticamente reproduz todos e cada um dos momentos vividos ao longo do dia. E que no último segundo, aparece a pessoa que tenha te feito feliz naquele dia. Finalmente, o cérebro permanece com o mais importante, com o que mais você tenha gostado e o transmite em forma de filme, um filme chamado “sonhos”.
Desconhecido.   (via so-quotes)
distanciarei
E quantos sonhos deixamos para traz por medo de termos tentativas frustradas? Por não querer abrir mão de outra coisa para conquistar outra? Por medo, apenas medo. Sonhos acabados por medo deles serem apenas sonhos, e não se passarem de meras ilusões para nós, mortais. Sabemos o valor de cada segundo das nossas vidas, mas não estamos nem aí para aproveitar ao máximo cada segundo ao lado de quem a gente gosta, ou até mesmo passar ao lado de nós mesmos, em uma madrugada em frente ao computador, ao lado do celular ouvindo suas músicas favoritas, não sabemos aproveitar esses momentos e depois reclamamos de que nossa vida não foi proveitosa, ou que nada de bom acontece para nós. Talvez não aconteça, mas e aí? Você vai ficar esperando acontecer ou vai ir lá, tentar fazer acontecer. Sim, tentar. Por mais que seja em vão, você vai ter uma lição boa para sua vida, e no futuro, se tudo isso acontecer novamente, você já vai ter passado e saberá resolver. Mas preferimos esperar que alguém, um amor, um amigo, um ser humano diferente de nós, venha e faça a gente feliz, ou menos triste. Esperamos muito dos outros, e esquecemos de esperar de nós mesmos. Temos tantos sonhos, tantos motivos para buscar a felicidade e escolhemos não escolher arriscar tudo que temos. Amanhã você morre, e aí, o que você fez na sua vida? Você ficou sentado esperando seu grande amor, seu melhor amigo nascer de novo, esperar a felicidade pular a janela da sua casa? Isso não vai acontecer tão facilmente. Já tive um sonho de ser alguém diferente na minha vida, não consegui até agora, mas isso não quer dizer que eu tenho que parar de tentar, parar de ir lá, da a cara a bater, dar o sangue por algo que eu, somente eu quero. Algo que eu quero para mim por todos os dias, por todos os segundos até parar de respirar e enfim dizer que valeu a pena tudo que eu passei, por todas as dificuldades, por todas as decisões difíceis, eu passei por elas, de cabeça erguida, frente a frente com o medo e a desilusão. Se você querer de verdade, você vai lá e tenta, conseguir vai ser uma consequência, caso não consiga, você vai realmente saber que seu esforço foi pouco, que tudo que você fez poderia ter mais 50%. E aí, vai deixar seus sonhos irem pelo ralo do seu banheiro ou vai tentar ser alguém que você é dentro dos seus sonhos? Quer? Vai lá e tenta, se der errado você não vai poder dizer: “Eu não tentei ser feliz.
O menino Charlie. (via distanciarei)
eucaliptas
João nasceu sem chorar, levou palmada do doutor até a mãe ficar com dó. Parecia que João já veio ao mundo querendo chorar de dor, mas não queria incomodar. João comia todos os vegetais e legumes do prato. João cresceu forte e saudável, com o estômago verde e os olhos azedos pelo espinafre que engoliu ao longo da vida. João quando aprendeu a rimar, odiava o próprio nome. Odiava os colegas na hora da chamada. João, pé de feijão. João passou a odiar os contos de fada. João via girafas no céu, até que alguém disse que nuvem era água vaporizada. E João nunca mais viu uma girava no céu, por medo de contrariar. João odiava matemática, mas estudou e levou um dez por medo de reprovar. João fechava a janela do quarto quando os passarinhos acordavam, porque ele gostava de dormir sempre uma hora a mais, por medo de não conseguir assistir a aula no dia seguinte. João colocava o fone de ouvido baixo, por medo de prejudicar a audição. João reclamava quando o chiclete perdia o açúcar, e nunca passou mais de 5 minutos mascando porque detestava dentista, por medo de apodrecer os dentes. João enricou, por medo de não poder mais reclamar de nada. O João, que odiava matemática, virou engenheiro. João detestava azul, mas comprava sempre da mesma cor, por medo de mudar. João odiava a mulher que dava troco em balas, mas aceitava, por medo de ter que esperar um pouco mais na fila. João jogava as balas fora, não dava pra criança pobre nenhuma, porque não queria alimentar a vadiagem. João odiava o calor, e mandou comprar um ar-condicionado que sugava o seu nariz, porque não queria suar. João nunca montou caras no suporte do ventilador, nem ouviu como sua voz ficaria engraçada se ele tivesse gritado nas hélices. João reclamava do barulho de tábuas rangendo, e nunca conseguiu escutar o som dos netos quando eles começaram a andar. E agora o João era Seu João, um velho que nunca precisou de óculos porque nunca quis saber de ler no escuro, um homem que escutava qualquer coisa, mas preferia ser surdo a ter que ouvir todo aquele silêncio proposital, um homem que comeu todos os vegetais do prato, que não tinha uma única cárie, que era engenheiro e odiava matemática. João morreu dormindo. Por medo de incomodar.
Cinzentos     (via eucaliptas)